terça-feira, 12 de janeiro de 2016
A saga de Júlio Santeiro
Cancela do Frade, uma cidadezinha de pouco mais de três mil habitantes, incrustava-se nos confins do agreste do Sabugi.
Reza a tradição que o nome do lugarejo origina-se de uma história curiosa e carente de comprovação. Conta-se que no Brasil colonial um Frade Capuchinho em visita ao local foi urinar num mourão de uma porteira onde se metera uma cobra num buraco. O réptil sentindo-se ameaçado pela urina picou o bilau do frade vindo o mesmo a falecer.
Ali morava Júlio Santeiro com a mulher Inácia e dois filhos menores Afra com treze anos e Zacarias com cinco. Os nomes foram apostos com um propósito. Afra (uma jovem corça) para significar o início e Zacarias (lembrado por Deus) o Z do final, pois não era intenção do casal contrair uma prole maior.
Júlio ganhou o apelido porque esculpia santos em madeira.
No momento ultimava um lindo projeto de um presépio encomendado pelo Prefeito Tião do Carmelo.
Inácia dedicava-se às prendas domésticas e algumas tarefas como alimentar o jegue Alvorada, alguns animais e umas galinhas. O burrico ganhou esse nome porque todo dia pela manhã, infalivelmente às quatro e cinquenta relinchava como a anunciar o nascer do dia.
Há mais de cinco anos não chovia em Cancela do Frade. Uma seca inclemente castigava toda região. Zacarias nunca havia visto uma chuva.
Naquele dia, entretanto Júlio teve um pressentimento de que iria chover. As orelhas do jegue Alvorada estavam viradas para baixo. Era um sinal infalível.
Logo cedo como de costume foram dormir. O casal numa cama e os garotos em redes armadas na pequena sala.
Durante toda noite a ameaça de chuvas foi precedida de relâmpagos e muitos trovões.
O dia amanheceu sob fortes chuvas.
O sol não mostrou sua pujança.
O jegue Alvorada não soltou seu rincho.
Afra acordou encharcada por uma goteira em cima de sua rede.
O casebre parecia desmoronar-se sob a enxurrada.
Eis que de repente uma das vigas de madeira despenca atingindo a perna de Zacarias e destruindo a escultura que Júlio trabalhava há dois meses.
Ouviu-se um grito seguindo de choro.
A pancada fraturou o antebraço esquerdo de Zacarias.
Júlio rapidamente com ajuda de Afra tenta apoiar o teto com um armário e Inácia cuida em socorrer Zacarias.
Este continua chorando e reclamando da dor.
- Temos que leva-lo a um posto de saúde – Diz Inácia não escondendo sua preocupação.
Júlio atrela Alvorada numa carroça e protegido por uma pequena lona enfrenta a chuvarada conduzindo Zacarias ao PSF.
No caminho o pneu da carroça furou.
Júlio não titubeou considerando a gravidade do momento seguiu viagem com o pneu furado.
Chegando ao PSF encontrou apenas uma atendente sem habilidade para um socorro de emergência.
Somente após algumas horas chega um enfermeiro todo ensopado.
Desculpando-se pelo atraso examina o braço de Zacarias e profere seu diagnóstico:
- É houve realmente uma fratura vamos ter que engessar.
- Temos um pequeno problema. O gesso disponível petrificou.
- A solução é procurar se o farmacêutico Enedino tem algum.
Júlio de pronto corre à casa de Enedino que ainda não tinha acordado.
Bate a porta com insistência.
Enedino acorda e por sorte tinha as ataduras de gesso.
Com o braço já engessado Júlio procura consertar o pneu da carroça e retorna à casa em seguida ainda sob temporal.
Ao chegar encontra Inácia com outros apuros. As águas acumularam-se ao redor da casa e já estava invadindo o interior.
Júlio desatrelou Alvorada guardou os arreios e acomodou Zacarias na sua cama. Em seguida com dificuldade improvisou um arrimo com sacos de areia colocando-os no entorno para impedir que a casa fosse alagada.
Por precaução acomodou os poucos objetos de valor em cima do guarda roupa e alguns pendurou amarrando-os nos caibros. Mesmo assim estava ciente que a casa não suportaria outra noite de chuva. Melhor seria prevenir que remediar.
Planejou pedir arrego na Prefeitura ou com o Padre Bartolomeu. Procurou o Prefeito, mas esse estava ausente, pois tinha ido à Capital a procura de socorro.
Foi ter com o Padre Bartolomeu. De pronto o vigário ofereceu-lhe ajuda e disse-lhe que trouxesse o mínimo necessário para um dos cômodos da Casa Paroquial.
Júlio retorna e juntamente com a mulher acomoda na carroça todo seu patrimônio. Alguns gêneros alimentícios, duas esculturas de madeira, duas redes, uma maleta com roupas, um filtro de barro, um sistema de som 3 em 1, uma pequena TV, alguns retratos de família, uma Bíblia Sagrada, um crucifixo de pedra sabão e um oratório com uma imagem de Padre Cícero Romão Batista. Dispôs um travesseiro para acomodar Zacarias e partiram.
A meio caminho, com a continuidade das chuvas, rompeu-se um pequeno barreiro lindeiro à estrada que transitavam e o nível das águas subitamente cobriu toda a estrada. O burrico Alvorada não teve força suficiente para enfrentar a correnteza e a carroça foi arrastada indo de encontro a um muro de arrimo. Com o choque todos os pertences foram arrastados. Júlio consciente da perda material e reconhecendo ser um fato consumado preocupou-se apenas em levantar e conduzir Zacarias para um local seguro para onde também foram Afra e Inácia.
Vão-se os anéis ficam os dedos – comentou tentando acalmar a mulher que chorava copiosamente.
No outro dia a chuva parou e o sol voltou a brilhar.
Finalmente tudo isso não teria acontecido se não existisse dois desocupados um escriba simplório como eu e um leitor curioso como você.
Infelizmente em todo jardim há flores e espinhos.
maurício montenegro
quinta-feira, 7 de janeiro de 2016
Flor do cerrado
Os filhos da gente nunca crescem, são sempre meninos.
Convivendo diuturnamente você pensa que conhece as pessoas;
Por mais íntimas que sejam há sempre um universo intransponível em cada um protegido pela individualidade.
De onde menos se espera às vezes acontecem descobertas inusitadas.
Manifestações incomuns que denunciam atributos reprimidos como é o caso que demonstra meu primogênito Guga ao escrever o belíssimo poema a seguir transcrito singular e exótico como uma flor do cerrado.
Pelos hotéis e pousadas
Sumido, perdido na estrada
Da rua do poço do mundo
Chorando o pranto profundo
Das dores dessa madrugada
Sem ponto, partida ou parada.
Encaro o fel e a doçura
Olhando beleza e feiura
Querendo chegar pra sair
Sonhando acordar e sorrir
Vivendo sem tanta amargura
(Guga Montenegro)
sexta-feira, 1 de janeiro de 2016
Meu nome é Caio
Sentei num banco à sombra de uma mangueira enquanto esperava lavar o carro.
Aproximam-se um afro descendente e um garoto de uns seis anos.
Ambos sentaram-se no meio fio e o menino reclamou:
- Nós chegamos primeiro.
Disfarcei e disse que eles podiam sentar no mesmo banco se quisessem.
O guri muito simpático e com ar desinibido abraçava duas bandas de côco verde. O adulto também sorridente segurava um par de chuteiras. Puxando conversa balançou as duas segurando-as pelo enfiador e comentou:
- São pesadas.
Para ser simpático segui a conversação:
- O Senhor joga em qual posição?
- Zagueiro sentado.
- Não, é que a maior parte do tempo fico no banco.
Sorri com seu bom humor e voltei-me para o garoto.
Brinquei e perguntei se ele não me dava um pedaço de côco.
- Pode levar. Respondeu sem titubear.
Elogiei seu comportamento e perguntei seu nome.
- Meu nome é Caio.
- Caio Prado Júnior - comentei.
(Não sei por que essa bobagem da gente repetir o nome de alguém famoso).
- Errou. Caio Barbosa Lobo. E sei imitar “Maicon Gerson”.
Pensei um desses meninos prodígio.
- Ah você sabe imitar o Michael Jackson imita ai que eu vou filmar com o celular.
Liguei a geringonça para filmar, mas não encontrei a função desejada.
O garoto consolou-me.
- Liga não. Teu celular tá de bobeira.
São coisas simples da vida com poesia e humor guardadas no baú da sabedoria popular.
quinta-feira, 26 de novembro de 2015
FORA DE FOCO
“Hoje vamos começar o programa com uma ótima notícia a prisão pela Polícia Federal do Senador Delcídio Amaral, líder do Governo, por obstrução à justiça em flagrante delito.”
Com essa introdução sensacionalista Fabiano Gomes apresentador do programa jornalístico “Correio Debate”, iniciou a audição dessa quarta feira 25 de novembro.
Fiquei atônito com a interpretação do radialista em considerar a prisão de um senador da república como sendo uma boa notícia.
Partindo desse entendimento posso deduzir que para o jornalista que tem um vezo sádico também são boas notícias as mortes causadas pelos terroristas na Europa, as inundações causadas por barragens de rejeito, os apagões elétricos, os atos de pedofilia, os desastres, etc.
Aliás, não foi a primeira vez que ouvi nesse mesmo programa impropérios cometidos pelo mesmo jornalista.
Tempos atrás, em certo programa, discutia-se os problemas de trânsito no centro da cidade, notadamente a falta de estacionamento, o inditoso radialista sugeriu uma “perola” de solução urbanística de aterrar a lagoa do Parque Solon de Lucena para criar áreas de estacionamento.
Ainda bem que ele não é nem nunca será prefeito da cidade.
Causa admiração um sistema de comunicação de prestígio dar guarida a um profissional com uma visão fora de foco.
Maurício Montenegro Rocha
domingo, 22 de novembro de 2015
MIOPIA COLETIVA
As atuais acomodações da Assembleia Legislativa deixam muito a desejar do ponto de vista espacial e já não atendem às atividades requeridas por aquele poder.
Os espaços são insuficientes e o acesso problemático.
Uma reforma do atual prédio se mostra por demais inconveniente e ineficaz.
A solução passa inegavelmente por ocupação de um novo espaço.
Nada mais justo para prover aos nobres parlamentares representantes do povo e responsáveis por tão significativo papel de nossa organização política do que oferecer acomodações dignas e adequadas.
Acabo de ver noticiado que a Assembleia deverá ser transferida para o prédio onde funcionou o Paraiban, na Epitácio Pessoa.
Triste notícia.
Segundo aforismo do Solitário de Tambaú “ver bem é ver o que os outros não vêm”.
No caso ver bem é um exercício de futurologia projetando as consequências que advirão da transferência de domicílio pretendida.
O incremento provocado pelo tráfego gerado irá certamente congestionar ainda mais a já esclerosada artéria urbana (Av. Epitácio Pessoa) e principal corredor viário da cidade e ruas adjacentes.
Dispor um amplo estacionamento no antigo prédio como apregoa o Pres. Adriano é uma façanha de ficção científica. Como multiplicar um terreno?
Salvo com soluções faraônicas como ocorreu com certo arquiteto carioca que ao ser indagado sobre a uma nova localização do aeroclube de João Pessoa sugeriu a construção de uma enorme plataforma de concreto armado sobre o Rio Sanhauá.
A proposta em estudo não resolverá o problema de suas excelências além de criar óbices prejudicando a mobilidade urbana um dos mais graves problemas enfrentados pelos pessoenses.
Será ruim para o comercio local, para os usuários e para os Senhores Deputados. Será um equívoco dos gestores, dos arquitetos e de quem mais participar desse ignominioso projeto. Será uma manifestação de miopia coletiva.
O mais sensato e oportuno seria a construção de um novo equipamento para abrigar todas as atividades legislativas em área adequada existente no patrimônio do Estado nas proximidades da Escola de Serviço Público ou do Espaço Cultural.
Maurício Montenegro Rocha
Engenheiro Civil
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
Balduíno Lelys
Uma fábrica de sonhos.
Arqueólogo visionário e eterno cultor da natureza. Um cidadão do mundo.
Telúrico? Utopista? Nenhuma coisa nem outra. Classifico-o como um ecologista na verdadeira acepção da palavra engajado na luta pela preservação da fauna e da flora do Cariri.
Conheci Balduíno na década de 70, na casa de minha sogra Maria Rosa Jacinto que gozava de sua intimidade.
Mesmo não tendo chance de falar, pois ele não dava trégua me encantei com aquela conversa prodigiosa que mais parecia uma cordilheira narrando suas experiências na selva amazônica comendo jabuti cozido no próprio casco.
Um sertanejo protagonista de uma rica história de vida como uma aquarela gigantesca pintada com pinceis mágicos.
Por conta de sua personalidade franciscana experimentou altos e baixos nas atividades que desempenhou.
Um empresário sem emprego e sem salários.
Seus passos são imprevisíveis ora como empresário exótico como o definiu Machado Bitencourt, ora convivendo em comunidades indígenas pesquisando fósseis milenares, ora dedicando-se à industrialização de medicamentos naturais, ora em atividades didáticas como fundador da Universidade Leiga do Trabalho, em Taperoá, sua cidade natal. Fundador do laboratório Lelis, fabricante de água oxigenada e xaropes.
Um extraordinário ser humano possuidor de invejável inteligência e de uma visão cósmica do universo e sem o menor apego às coisas materiais.
Um escravo da busca do conhecimento.
Autor de palestras para grupos seletos no exterior como ocorreu em Tóquio falando para biólogos e cientistas sobre o processo de fossilização das baleias.
Fez da museologia seu projeto de vida atividade que consumiu todo seu patrimônio material.
Tivemos uma convivência estreita quando o procurei para montar o museu da energia, na Cruz do Peixe (hoje Usina Cultural da Energisa), a pedido de João Agripino Maia de Vasconcelos então presidente da SAELPA concessionária de energia elétrica da Paraíba.
Hoje tive a felicidade de reencontrá-lo na Cinep – Companhia de Industrialização da Paraíba. Conversamos sobre seus projetos e não me surpreendi. Continua com a mesma garra e os mesmos sonhos.
jhgj
sábado, 31 de agosto de 2013
Novo emprego
Você é livre para fazer suas escolhas,
mas é escravo de suas conseqüências. (Pablo Neruda)
“O paralelo é a melhor forma de
julgamento”.
José Américo de Almeida
Estou vivenciando uma nova
experiência.
Abandonei por livre e espontânea
vontade o encanto da ociosidade permitida.
A pesar da idade avançada
suspendi meu merecido ócio remunerado pela aposentadoria e aceitei um novo
desafio.
Assumi, a convite de minha nova
amiga Tatiana Cabral a chefia do Departamento de Engenharia da CINEP –
Companhia de Industrialização da Paraíba.
A experiência acomoda duas
vertentes distintas.
De um lado o enriquecimento da
auto-estima e do outro a perda dos privilégios reservado aos jubilados.
Estabeleço um paralelo para
julgamento das duas situações.
O fato de ter sido lembrado,
sendo um sexagenário, é uma confortável e estimulante massagem no ego.
Sentir-se útil e produtivo é um
rejuvenescimento.
Ter sua capacidade reconhecida e sua
experiência de vida entendida como algo que soma e que pode contribuir
proativamente numa atividade laboriosa é algo fascinante para quem é acolhido.
Faz a diferença ser entendido não
como um estorvo ou algo descartável, mas como alguém capaz de pensar e produzir.
É realmente reconfortante e
encorajador, sem falar no reforço do orçamento doméstico.
Na coluna dos débitos lanço as
desvantagens.
A suspensão repentina da dolce far niente. A suave
indolência como dizem os italianos.
Não poder mais preencher o dia
com amenidades jogando conversa fora com os amigos sem nenhuma obrigação com
horários nem coisas a fazer.
Não poder mais dormir altas horas
da noite e acordar na hora que lhe aprouver deixando-se espreguiçar numa
leniência prazerosa.
Não poder mais desfrutar da
alegria do convívio e das brincadeiras com minhas duas netinhas Luisa e Alice, nas
sextas feiras.
Ter que enfrentar diariamente um
trânsito caótico e estressante no deslocamento para o trabalho e vice versa.
São os ossos do ofício, a lei da
compensação.
Todavia
estabelecendo-se o paralelo a coluna dos benefícios tem mais peso. (Por
enquanto).
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